LOPES DE ALMEIDA JOAQUIM: As barreiras de vários tipos fazem pensar que ser assistente social significa ter um certificado de pobreza

As barreiras de vários tipos fazem pensar que ser assistente social significa ter um certificado de pobreza


Lopes Almeida Joaquim, é formado pelo Instituto Superior de Serviço Social de Angola (ISSS), actuando como Assistente Social no Centro de Apoio Integrado à Vítima de Violência Doméstica de Talatona (CAIVVITA), é consultor social na área de empreendedorismo social, académico e family adviser.

De acordo com Lopes Joaquim, disse ao Hold On Angola que o mercado angolano é muito fértil em tudo, mas barreiras de vários tipos fazem pensar que ser assistente social em Angola significa ter um certificado de pobreza. Os assistentes sociais estão à deriva nesta busca do equilíbrio social, estão se reinventando, outros já terão desistido de se exercer suas actividades e alguns deles estão remando contra a maré.

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1. Por onde andam os assistentes sociais em Angola?

LP: Quanto à questão do paradeiro dos assistentes sociais, não seria um bom interlocutor, porque temos uma entidade que é a Associação dos Assistentes Sociais de Angola, da qual faço parte, mas há pessoas com informação privilegiada, tudo que sei é que nós estamos à deriva nessa busca pelo equilíbrio social, alguns se reinventaram, outros terão desistido de exercer e alguns outros estão remando contra a maré.

Temos assistentes sociais em instituições estatais, especialmente em saúde, educação e afins, agora o que eles fazem seria a questão. Sabe, a conjuntura sócio-político é de uma só cor, e isso nega o desempenho de uma só tão classe interventiva como a nossa, parece polêmica, mas a verdade é que a classe ainda não se impôs.

2. Qual o papel do assistente social na implementação das políticas públicas quer no âmbito social, familiar e escolar?

LP: O meu quotidiano é responder a esta questão, prova de que ainda somos estranhos na sociedade angolana. Olha, o objecto de actuação do Assistente Social é a questão social nas suas multiplas formas de manifestação, logo, na implementação de alguma política pública, seja de que sector for, o Assistente Social é o responsável pelo diagnóstico social, para validar ou não a necessidade desta política, mas isto não se faz em quatro paredes, é no terreno interagindo com os destinatários da mesma, e segue-se a ponte social no meio de diferentes intervenientes, tendo como fundamento o bem-estar das pessoas, a dignidade e a liberdade. Por exemplo: quando o Estado vai demolir residências com pretexto de fazer uma estrada ou construir um equipamento social, o Assistente Social é o profissional privilegiado para fazer a ponte e não Polícia ou as FAA como temos visto. Portanto, a participação do Assistente Social na implementação de uma política pública, parte do diagnóstico até pós implementação, porque depois vem o cuidado, como usar, é o Assistente Social quem educa, sensibiliza os destinatários directos e indirectos das políticas públicas, sobre os cuidados a tomar em relação ao bem material e/ou imaterial.

3. Como está o mercado de trabalho para Serviço Social?  Há muita oferta?

LP: Classe profissional alguma a escala mundial foi levada ao colo pelo mercado. O mercado é uma questão de conquista, particularmente, tenho defendido que o mercado angolano é bastante fértil em tudo, mas as barreiras de várias ordens têm feito com que o pensamento de que ser-se Assistente Social ou cursar Serviço Social é outorgar-se um certificado de pobreza venha ganhando expressão. Mas senão, ofertas há, embora raras, muito fruto da nossa apatia, é um desafio que não deveria ser isolado, porque o impacto da acção individual é pouco expressivo do que de uma acção colectiva.

4. Quais são as principais entidades representativas do Serviço Social angolano?

a) Essas entidades faz o seu papel?

LP: A entidade que nos representa como classe profissional é a Associação dos Assistentes Sociais de Angola (AASA), filiada na Federação Internacional dos Assistentes Sociais (FIAS). Relativamente ao seu papel e/ou protagonismo, neste contexto em que andamos todos sob a sombra da Covid 19, custa explicar, mas estamos àquem das expectativas do contexto social, como disse acima, o unicolorismo social é factor de fragmentação de muitas classes profissionais e a nossa não poderia ser diferente, infelizmente.

5. Assistencialismo: Mas convém referir que em Angola pouco vimos do vosso trabalho e, se o fazem, é apenas num pequeno grupo restrito.

LP: Assistencialismo faz a Igreja e as ONG'S vocacionadas para tal, é importante referir que de 2005 para cá nós evoluimos da assistência social para acção social, dito de outro modo, em termos de política governativa, deixamos de dar arroz e passamos a dar terra e capacitar o homem a cultivar o arroz, pelo menos do ponto de vista subjectivo isto é uma realidade, agora, em termos objectivos, na prática a carroça ainda vai adiante dos bois, porque meter pessoas erradas em lugares certos é o que mais e melhor sabemos fazer, o tal nepotismo que era suposto combatermos. Um exemplo mais actual são os Centros de Apoio Social Integrado (CASI), construídos no âmbito da municipalização da acção social, se for lá visitar, poderá encontrar tudo menos Assistente Social trabalhando como técnico e agora nas equipas do PIIM, em fim é uma exclusão tanta, porque a classe ainda vai a reboque.

6. ​Dado covid-19, e a inflação no mercado angolano com famílias famintas em algumas partes do país ou talvez em todo, os assistentes sociais

sendo coadjuvado pelo Estado angolano, deveriam exercer as suas actividades voluntariamente com estas famílias, podendo melhorar a imagem e despertar o interesse de mais empresas e talvez gerar empregos para muitos licenciados nesta área.

LP: Nós coadjuvamos, ou melhor facilitamos o Estado na materialização das políticas públicas e nunca o contrário. A Covid é para nós um teste a sério, dela escaparão os fortes. Sobre as pequenas iniciativas, particularmente integrei até Abril de 2020 uma equipa multidisciplinar, mas por questões de ética sentí-me obrigado a desistir, para dizer que desafios temos enormes, tal como referi e reitero, isolados pouco ou nada podemos fazer.

7. O primeiro Secretário Nacional da JMPLA, Crispiniano dos Santos, disse, nesta quinta-feira, 01, em Luanda, que “a juventude angolana não deve perder tempo com a realização e participação nas manifestações”. Para ele, os jovens devem sim ir atrás do conhecimento e da investigação científica e encontrar soluções para os seus próprios problemas”. Tendo em vista que os protestos são constitucionalmente, qual seria a sua posição como assistente social?

LP: Como Político até ai foi o raciocínio dele, à mim como Assistente Social cabe respeitar e talvez referir que em sociedades transitórias o conflito de interesses e a ausência da consciência colectiva é a principal característica, as ideias por cá são emitidas segundo as crenças e  convicções pessoais, noutras vezes de grupo, mas sem ter em conta o contexto social, económico, geográfico, cultural e até mesmo político do eu social e do outro, por isso assistimos de todo tipo de episódios anormais que vão parecendo normais. Acredito na soberania popular, penso as manifestações são expressões do fechamento das instituições e dos outros espaços e meios de diálogo social, mais uma vez o unicoloríssimo presente.

O agravamento da questão social expõe as pessoas em qualquer sociedade, na fome conhecem-se os deuses e os filósofos. Tenho dito.

8. Que mensagem deixa para os Assistentes Sociais?

LP: Não sei se sou digno de aconselhar algum Assistente Social, talvez deixar algumas palavras de apresso aos meus colegas e aspirantes a profissão, de que não há benefício sem sacrifício e na luta pela emancipação profissional nem todos caminhos vão à Roma, outros levam ao Mediterrâneo, e, onde afoga um Assistente Social sociedade alguma resiste, moralidade, moralidade, moralidade. Muito obrigado!

Por: Francisco Muanza

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