A desconstrução do Sistema Alienativo Imposto nas sociedades Africanas

Uma visão Reflexiva em torno dos problemas que afectam a vida dos Africanos | 2021

Simão Bengui Eduardo

Parte III – Angola e a Problemática da Oficialização das Línguas Africanas-nacionais no território.

Por Simão Bengui Eduardo “Òrìnsàla”

        Na esfera da busca de respostas que possam nos elucidar quanto a esta preocupação social, devemos lembrar que o debate em torno da oficialização de uma língua africana-nacional em Angola não vem de hoje. Ela tem as suas raízes dentro do processo histórico na qual se deu a formação das falsas independências africanas que é hoje é tão visível para qualquer observador. Um olhar clínico sobre as motivações africanas nas lutas anti-coloniais consistiu/consiste neste desejo das populações africanas que se encontram neste território falarem as suas próprias línguas, manifestarem as suas culturas e darem seguimento do seu projecto de civilizacional olhando para a sua ancestralidade e ao mesmo tempo para o futuro que pretendem enquanto seres existenciais. A realidade do que conseguimos compreender sobre os conflitos entre os humanos que aconteceram ao longo da história, temos a percepção que este desejo pode ser deturpado, manipulado e desviado tendo em conta os processos de invasão, ou não, na qual os povos são submetidos (ou se submetem politicamente) no surgimento de outras forças. Desviar um povo do seu verdadeiro propósito cultural tem muito a ver com aquilo que as forças invasoras pretendem com os mesmos e, o levante deste mesmo povo face ao processo de subalternização colectiva ao perceber que ao perceber que esta sendo submetido no cumprimento do desejo de outrém em função da consciência histórica que este povo tem sobre si mesmo. Os povos de Angola perderam violentamente/e gradualmente a sua identidade cultural começando pela língua e depois a crença. O sistema colonial português estabeleceu regras e manteve a sua postura de dominador durante o processo de colonização que decorreu nos séculos XVIII e XIX e ate nos meados do século XX.

        Em diferentes territórios africanos onde se registou a presença portuguesa, a identidade cultural dos povos autóctones, foi deturpado e em muitos casos com pouca resistência dos nativos, foi destruído. Muito do que sabemos a respeito das culturas locais e do sistema linguístico dos povos africanos neste território deve-se, em parte do processo de resistência e da continuidade do sentimento de pertença por parte de alguns grupos que se foram fortalecendo nas suas comunidades mantendo em parte as suas tradições e encontraram o seu refugio no sincretismo religioso que se assistiu ao longo dos tempos após a independência e nos dias actuais. Com a chegada dos portugueses em Angola na foz do rio zaire e com as relações que se desenvolveram ao longo dos anos no Reino do Congo, destruiu-se o que existia, fomentou-se a estagnação das culturas nativas, destrui-se a percepção, oficializou-se a religião alienadora e ao mesmo tempo a língua dos portugueses passou a ser ensinado nas instituições que se foram construindo quando se deu a destruição do reino em nome das diplomacias que afectaram a população local e a própria elite que pensavam que, ao seguirem a cultura do invasor estariam a descobrir o mundo ou estariam ao mesmo patamar do invasor o que resultou num engano tremendo e as consequências desta ingenuidade os descendentes destes ainda pagam.

        Na verdade este comportamento incivilizador “racista esquemático” contra o desenvolvimento do local, assistiu-se em todas as regiões onde se verificou a presença dos portugueses. Destruir e colonizar foi uma prática decorrente sendo que tudo assentava no processo de destruir sistemas de crenças, controlar os corpos negros, suas culturas, suas línguas em todas as dimensões. Camaroff & Camaroff (1997, citados Wilson Trajano Filho e Juliana Braz Dias, 2015), defendem que foi um processo que actuou, simultaneamente igualmente e inseparavelmente, na economia política e na cultura, são, portanto, aspectos de uma mesma realidade. O colonialismo está relacionado ao evento histórico do capitalismo industrial e aos imperativos materiais da modernidade, ao mesmo tempo que atravessa o campo das representações, dos discursos e dos valores. Como tal, foi experienciado, pela pluralidade de sujeitos envolvidos, na totalidade da vida social e na própria definição dos termos em que essa realidade se apresentava à experiência, classificando-a e hierarquizando-a.” Este processo de alteração e reconfiguração significativa das sociedades nativas ao mesmo tempo englobava cooptação das mentes a esta nova realidade que se assistia nascer com as suas diversas metamorfoses culturais. No entanto foi o seguimento de um sistema violento com novas formas de linguagem na destruição dos corpos com uma nova semântica justificativa que a colonização foi se galvanizando ao longo dos tempos destruindo a cultura-linguistíca dos negros. Moisés Kamabaya (2014), descreve que “o sucedâneo da escravatura transatlântica foi o regime colonial. Este sistema de exploração do homem pelo homem foi uma questão económica política, tanto quanto o foi a escravatura clássica. A única diferença é que enquanto na escravatura o europeu levava a mão-de-obra e as matérias-primas para fora da África, no regime colonial a exploração e a opressão do africano eram praticadas no local onde se encontravam os homens e as matérias-primas: em África. O colonialismo é, portanto, a escravatura do africano praticada no próprio continente que o viu nascer (p.97).” Este último aspecto da invasão das sociedades africanas que resultou num sistema bem articulado (o colonialismo) foi determinante na mudança de mentalidade dos africanos apesar de que, a exploração, o saque dos recursos nas terras de Angola era fundamental, destruir a mentalidade das populações quanto a sua própria cultura, a dimensão das suas línguas, foi a base principal de todo o investimento. A mente do africano foi o alvo principal no sistema de dominação colonial em quase todos os aspectos (Cf, Steve Biko, 1970), é daí onde se desenvolveu todo o esquema da alteração dos conceitos e do sistema de pensamento ecolinguístico do angolano. Neste aspecto, muitos intelectuais negros compreenderam este processo de manipulação das mentes para a castração dos corpos. Frederick Douglas (apud, Carl Sagan, 1996, 1995, 2006), refere-se que, o que importa no sistema de dominação escravocrata não é o que fazem com os corpos dos negros, mas sim, com a mente.”

        O sistema colonial levada a cabo pelos portugueses em Angola, foi acima de tudo um sistema de mudança de percepção, alteração do pensamento que deu alteração do panorama cultural. Construção de uma nova forma de mentalidade para interpretar o mundo. Uma construção mental com novos paradigmas. É o que as pessoas pensam que determina a dinâmica do comportamento. Quando os vectores coloniais são induzidos e introduzidos colectivamente a sua manifestação também é colectiva. A mentalidade enquanto um processo de criação e manipulação de imagens mentais (visuais ou não) no cérebro (Castells 2017, p.191), nutridas com uma linguagem narrativista do mundo é que leva o sujeito a interpretar a realidade. É preciso relembrar que, para os povos que se encontram em Angola, a língua não é só um factor primordial de comunicação entre as pessoas, é acima de tudo um reservatório cultural, um sistema de construção de paradigmas de cultos centrais no seu sistema religioso e revelador dos conteúdos que a filosofia da oralidade defende para a manutenção do grupo por meio da continuidade dos descendentes e ao mesmo tempo a língua é o cesto de códigos para se interpretar o mundo, inventar e reiventar a sua própria realidade. Ngugi Wa Thiong´o (1997, cit, Lott Tiago Horácio, 2013, p.121), um dos pensadores africanos que muito se debate sobre a oficialização das línguas africanas e a necessidade dos africanos falarem as suas línguas como base para sua identidade cultural, revelou-nos que, a “língua não era uma mera sequência de palavras. Tinha um poder sugestivo muito além do sentido léxico e imediato. Nossa apreciação do poder sugestivo mágico da língua era reforçada pelas brincadeiras que fazíamos com as palavras através de adivinhações, provérbios, transposições de sílabas, ou através de palavras sem sentido, mas musicalmente arranjadas. Então, aprendíamos a música de nossa língua antes de seu conteúdo. A língua, através de imagens e símbolos, nos deu uma visão do mundo, mas ela tinha uma beleza própria.” A prospecção visionária que um povo tem do mundo os códigos e os termos que abrangem os diferentes fenómenos na sua plenitude estão todas cravadas na língua. A disvirtualidade deste aspecto linguístico quanto a realidade deu-se, precisamente na eficiência dos métodos coloniais que muitos estados pós-coloniais continuam a preservar. Kamabaya destaca dois métodos fundamentais no processo de destruição das línguas: a) direct rule e b) Indirect rule. Revela-nos Kamabya:

“Segundo os teóricos da “Indirect Rule”(a), a administração da colónia seria mais eficaz se os nativos pudessem manter as suas instituições tribais desde que obedecessem às leis dos europeus e permitissem a exploração económica das colónias. Mas este método administrativo requeria da parte dos administradores coloniais um bom conhecimento das comunidades e instituições locais africanas. Noutros termos, a “Indirect Rule” implicava um respeito das instituições e das autoridades tradicionais. A Direct Rule (b), consistia em não dar respeito as instituições africanas. Em virtude da sua característica assimilacionista de não dar importância ás culturas e instituições locais, ela se apresenta como uma política deliberada de suspensão das línguas nacionais e das autoridades tradicionais potentes, por constituírem um potencial perigo para a potência colonial” (p.105,-6).

        Com estes métodos sistemáticos e estruturais como vias para se penetrar no interior das sociedades africanas e no âmago (alma) do africano, o alcance do que se pretendia na expansão do sistema de dominação colonial foi fácil o processo de sua efectivação na ideia de afastar os povos diante das suas próprias línguas. Com método violentos em regiões onde a resistência foi tanta a dialetização das línguas africanas pela via do assimilacionismo e a oficialização da língua portuguesa foi decorrendo lentamente até atrair as massas corrompendo os representantes dos povos. Durante anos em que o sistema colonial vincou em Angola, o desígnio de dominar os nativos sempre esteve assente na questão da língua. A língua como elemento determinante, serviu de barómetro para hierarquizar as pessoas e ao mesmo tempo criar distinção entre os colonizadores (civilizados), os assimilados e os não-assimilados do outro lado, num entanto o imaginário colectivo dos angolanos sempre foi atingido com o desejo de estar na posição mais “próximo” do invasor e gozar do prestígio deste, no entanto para efectivação utópica na perseguição da civilização deste, era preciso se submeter as leis e os padrões sociais estabelecidos pelo sistema colonial que passava acima de tudo no domínio da língua portuguesa, situação que o próprio invasor português sabia no estudo comportamental do meio. Eis razão de vários decretos que foram surgindo nas diferentes fases enquanto durou o sistema colonial. Com a visão dualista, maniqueísta, imposta (Fanon, 1968, 1975) nas sociedades africanas invadidas pelos colonos portugueses, a firmeza e o desenvolvimento desta visão consistia acima de tudo na defesa do apartheid, entre os ango-africanos de um lado e os portugueses do outro. Consistia no controlo dos territórios, exploração económica. Kamabaya, descreve:

“para manter este sistema de exploração económica, colonialismo engendrou em toda a África um dualismo sociocultural caracterizado pela existência na colónia de dois tipos de sociedades desiguais. Uma sociedade central onde se concentravam os factores modernizantes e dominantes do funcionamento político-económico da colónia, e uma outra sociedade periférica, tradicional e submetida á primeira. A sociedade central era só reservada aos colonos brancos e comandava o aparelho repressivo e explorador da colónia, enquanto a periférica desempenhava o papel de fornecedora da mão-de-obra barata e mercado de recepção dos produtos vindos do centro. Esta última era reservada só aos pretos nativos da colónia. Em Angola, este apartheid sistémico colonial correspondia à existência de uma parte da cidade – a baixa – bem organizada e limpa onde só podiam morar os portugueses, e os ditos musseques ou sanzalas, onde eram confinados os angolanos. Esta divisão representava a expressão das desigualdades raciais e os desequilíbrios próprios de uma sociedade de injustiça, que historicamente foi desenvolvida sob a influência do sistema político de exploração, que cultivou o centro e a periferia, e passou para a periferia tudo o que é africano e depressivo com as suas experiências e patrimónios culturais próprios de um homem explorado (op, cit, p.103-104).”

        Para ser civilizado era preciso que o angolano negasse a sua língua, a sua crença e os seus elementos culturais para se submeter as leis do colonizador. Uma das leis consistia precisamente no não ensino das línguas africanas no sistema de ensino conforme se viam em algumas igrejas em Angola que pretendiam difundir o sistema dogmático cristão. O Decreto-Lei nº 77, de 9 de Dezembro de 1921 decretada pelo alto-comissário José Mendes Ribeiro Norton de Matos, realçava o não o uso das línguas nativas neste território.

        Passados anos, mesmo com as mudanças que aconteceram no território nacional os ideias de Norton de Matos prevaleceu na mentalidade dos que herdaram o aparelho administrativo colonial português com as suas modelações estruturais para um novo Estado.

Mudança de paradigma ou manutenção do mesmo sistema?

        Depois do sucedido em 25 de Abril em Portugal como bem salientou o pesquisador angolano Laurindo Vieira (2007, p.80), que «poucas referências têm sido feitas sobre a importância do 25 de Abril nos países africanos que falam o português, julgamos que não deixa de ser uma referência histórica para os povos das antigas colónias sob domínio português. Sustentamos tal ideia por considerarmos que o 25 de Abril, mais do que um produto histórico dos nacionalistas portugueses, teve a sua génese na luta armada que os nacionalistas africanos de Angola, Moçambique e Guiné-bissau impuseram ao colonialismo português, criando uma situação favorável para a independência das ex-colónias de África e o fim da ditadura em Portugal. Assim, a guerra desencadeada nos territórios destes países criou premissas para que eclodisse o 25 de Abril e com ele se abrissem as portas para independência das ex-colónias.» No dia 11 de Novembro de 1975 proclamou-se a independência de Angola pelo presidente do MPLA, Agostinho Neto. Uma independência que trouxe novas discórdias pelos diferentes movimentos de libertação de Angola que eram os representantes do povo. Com o passar do tempo e com os conflitos que aconteceram em Angola, consolidou-se o Estado e no dia 04 de Abril de 2002 renovou-se os propósitos de uma Angola em paz.

        No entanto, o passado enquanto um local de memórias e ao mesmo tempo o centro na qual se poderia repensar Angola foi descartado. Os grupos étnicos com as suas línguas enquanto parte de acervo cultural deste território foram novamente afastados nas ideias da construção de uma Angola na matriz-africana. As principais línguas de Angola para não falarmos da sua variante, não foram tidas em conta neste projecto. Segundo Tony Edges (2002), todos os grupos africanos sofreram a influência da língua portuguesa. O português beneficiou do seu estatuto de única língua oficial e da promoção que dele fez o Governo pós-independência como um instrumento de unidade nacional. Tem sido o único veículo de instrução nas escolas e também a língua dos militares, partilhada por sucessivas gerações de recrutas (p.47).” A fonte do INE, em 1999 já nos mostrava que em termos de distribuição linguística a Língua portuguesa já gozava de privilégios em relação as demais línguas africanas neste território:

N/O Línguas principais de Angola (%)

  • 01 Umbundu 30%
  • 02 Kimbundu 16%
  • 03 Kikongo 8%
  • 04 Cokwe 6%
  • 05 Outras Línguas 14%
  • 06 Língua Portuguesa 26%

        No entanto mesmo com as mudanças sucessivas que aconteceram no decorrer do aparelho administrativo do Estado, as línguas africanas neste território não foram oficializadas e nenhuma delas passou a ser a língua veicular e gozar de prestígio como a língua portuguesa que é demolidora das outras línguas africanas. O que nos remete a afirmar que Angola enquanto país africano se caracteriza até ao momento seguidismo da cultura lusa, o que mostra ainda que os que movimentam o aparelho do Estado pós-colonial continuam a seguir os ditames do sistema colonial em conluio com os descendentes dos colonizadores que mantêm o seus sistema de dominação in repasses aos novos negros colonizados da casa grande. Dagoberto José Fonseca, in as línguas nacionais e o prestígio português em Angola (artigo, 2012), reforça a nossa abordagem afirmando que:

“A língua portuguesa foi apropriada pelos líderes independentistas angolanos como a língua oficial do novo Estado. Assim, ela convive com as demais línguas nacionais e étnicas em nítida concorrência. No entanto, ela se afirma cotidianamente nos altos escalões do governo e da burocracia, mas também na literatura e na música, portanto no imaginário sociocultural e na realidade concreta como uma língua de prestígio e que hierarquiza grupos, segmentos e indivíduos, particularmente porque ela está associada ao mercado de bens materiais e simbólicos e que define o lugar que o indivíduo, grupo ou segmento social ocupa na estrutura e no cotidiano angolano. A língua portuguesa organiza e estrutura a vida administrativa e gerencial em Luanda e no restante do país, mas não é a língua que monopoliza o mercado das ruas, na medida em que não é a língua do candongueiro e das zungueiras.”

        A língua portuguesa se mostrou veicular na mentalidade dos que receberam a educação portuguesa e que passaram directamente a ser os novos “minicolonos” para com as sociedades que não conheceram as suas múltiplas diversas culturas e nações na qual os mesmos não conheciam e não conheceram espiritualmente a sua história. “os minicolonos” passaram a ditar as novas regas de organização social naquilo que o colonizador não conseguiu concluir formatando a sociedade no seguidismo cultural português estabelecendo novos padrões comportamentais partindo da língua dos portugueses. A partir do momento em que se herdou o aparelho administrativo do Estado colonial que passou a ser Estado pós-colonial firmado em Estado novo, a Língua portuguesa ganhou todo o seu prestígio hegemónico, não porque uma outra língua africana “escolhida na base do consenso” identitário” não poderia servir de base modelador e organizador da sociedade angolana na sua plenitude, na verdade, o Estado novo, é também produto final deste sistema colonizador que abateu em África nas suas diversas formas em especial aos modos de vida das populações nativas de Angola que são oriundas de outros modelos de Estados organizados com as suas línguas nativas africanas que estão desaparecendo aos poucos. Sendo assim podemos inferir as seguintes questões que são pertinentes em torno da abordagem desta problemática:

1. Como se pode oficializar uma língua africana nacional num país africano com tantas línguas africanas e diferentes tradições africanas?

2. Como fazer desta língua africana escolhida ser veicular em outras regiões de Angola sendo que cada região ainda defende as suas raízes tradicionais que só podem ser compreendida dentro do seu próprio sistema tradicional e cultural partindo da língua local?

3. E porque escolher uma língua africana nacional e não procurarmos permanecermos simplesmente com a língua portuguesa não será que pode gerar tribalismo?

        Questões do género não podem ser respondidas simplesmente sem entanto nos aprofundarmos na dimensão da história e a importância da afirmação identitária cultural para compreendermos a complexidade de todas as questões que envolvem a condição das populações africanas nos territórios colonizados pelos portugueses. Sendo assim partimos com as seguintes teses afirmativas:


(1). Consciência da independência colectiva: Devemos compreender que os povos que se encontram neste território lutaram contra o sistema colonial português, para deferem os seus territórios, suas crenças, suas línguas e acima de tudo na defesa das suas culturas que ao longo dos séculos sofreu com a presença dos portugueses, eis a razão da luta pela independência que só foi possível fruto da congregação das almas, da união das sinergias culturais dos diferentes povos para expulsarem o colonialismo com toda a sua força. Sendo que o processo colonial foi acima de tudo centrado na questão da língua e da religião que deu na alteração do panorama cultural dos nativos e na mudança de pensamento dos povos nativos fruto da pseudo-educação colonial, com as lutas e resiliência colonial, os povos nativos procuraram acima de tudo voltarem a restabelecer a ordem dos seus territórios. A luta pela independência foi acima de tudo uma luta pela hegemonia cultural que passa na revitalização das línguas dos nativos e não mais no seguimento do sistema linguístico e cultural do colonizador para os mesmos falarem a língua portuguesa conforme temos vistos extensivamente oficializada para todo o território nacional. Dizia Kwesi KwaPrah (at, all, 2015) num mundo de culturas rivais, o crescimento, a prosperidade e o avanço cultural são factores de poder económico e político (p.74).” No entanto, sem a compreensão da dimensão cultural (língua-crença-história) como factor principal da expulsão do colonizador nas terras de Angola, então, em vão, foi a luta pela independência. Logo, é justo que se oficialize uma língua africana nacional em todo o território nacional sem descartarmos necessariamente as outras línguas que já são faladas no território nacional como um factor de reparação histórica e de identidade colectiva africana nacional. Ou seja, o papel que a língua portuguesa desempenha com toda a sua hegemonia política elitista, deve ser o lugar de uma língua africana com toda a sua hegemonia para servir de base principal da nossa identidade e como factor de identidade das outras identidades africanas sendo que as línguas bantas são todas aparentadas e semelhantes o que facilitará a compreensão de todos;

(2). Ensino e propagação: diferente do colonizador português que impôs a sua língua nas regiões ocupadas o que levou no processo de assimilação dos nativos com leis e normas coercivas para serem chamados de civilizados abandonando as suas práticas culturais, a língua africana nacional que será oficializada não precisa necessariamente ser imposta coercivamente no uso das armas e espadas, sendo que a história, em si já nos revela que os povos africanos sempre mantiveram contactos entre si, nas trocas comercias e no estabelecimento de relações de parentescos de diferentes níveis o que facilitou de certa forma a propagação dos elementos linguísticos semelhantes duma língua com a outra, o mesmo se sucederá com a língua escolhida. Sendo ela uma língua falada, todos o falarão na sua normalidade. Um outro aspecto, consiste em ensinar nas instituições de ensino esta língua oficializada e ao mesmo tempo em que todas as outras são estudadas no sistema de ensino. A língua africana nacional oficializada sendo consagrada na constituição será perpassada e difunda em todos os órgãos de comunicação e ensinada nos diferentes canais de acesso assim como se fala a língua portuguesa em outras regiões de Angola nas instituições do Estado;

(3). A consciência identitária, poder e liberdade; por detrás de qualquer identidade cultural está o poder, a capacidade de se auto-definir e de escolha e a preservação da nossa própria existência. Um povo é livre quando fala a sua própria língua, tem a sua própria crença, valoriza a sua história elevando a sua ancestralidade e isso só é possível começando na identidade cultural que é uma questão de língua. A língua não apenas um instrumento de comunicação, ela contém todos os códigos da existência espiritual e filosófica de um povo. Para Ferdinand Saussure (2006) citado por pesquisador angolano mestre em estudos africanos, António Guede (2019), revela-nos que a língua deve ser entendida como parte determinada, essencial, da linguagem. É ao mesmo tempo um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adoptadas pelo corpo social para permitir aos indivíduos o exercício desta faculdade (p.82). Para nós, a língua é a própria alma do povo, sua existência na compreensão de todas as constelações do universo e dos fenómenos mais recônditos da alma e da pessoa humana que se revelam por meio da língua. O sistema de pensamento ocidental jamais conseguirá revelar os fenómenos mais profundos da alma cultural africana, pela limitação do vocabulário que não abarca experiências culturais africanas pois só os próprios africanos conhecem as suas experiências espirituais e as praticam e vice-versa. A morte cultural dos povos que se encontram em Angola começou com a adopção do sistema religioso e linguistíco dos portugueses e se proliferou com o roubo das mentes pela formatação educacional “eurocêntricacolonial” e esta se consolidando com o “Estado pós-colonial angolano” com as suas normas e leis constitucionais avessas a realidade histórica dos povos nativos. Ngungi wa Thiongó (1986) reforça a nossa posição afirmando que, se queremos a África caminhe no seu próprio ritmo as políticas africanas devem ser direccionadas nas línguas africanas. O que temos visto em Angola é uma continuidade do sistema colonial camaleonista”

(4). Políticas fomentadoras do Tribalismo inexistente na defesa da Língua Portuguesa, não muito diferente do que aconteceu no passado para se justificar a colonização na estúpida de ideia de conflitos, guerras tribais e civilizar os pagãos (Ki-zerbo, 1974, Mudimbe, 1988), em Angola pós-colonial, a não oficialização das línguas ou de uma língua africana por parte dos políticos e dos que ditam o curso das políticas sociais o “tribalismo enexistente” passou a ser usada como recurso, como a isca certa para não oficialização. Este discurso é tão usual pelos políticos e os intelectuais perdidos no eurocentrismo, segundo estes, se os angolanos começarem a falar suas línguas africanas nacionais e uma oficializada veicular em todo o território, este processo irá desencadear no tribalismo como aconteceu no passado. Para nós, este argumento não tem sustentação, serve apenas para manter o “status quo” da hegemonia da língua portuguesa como a base organizador da sociedade colonizada que é Angola. A verdade é que nenhum sistema imposto mentalmente se auto-destrói sem no entanto a mudança de mentalidade dos que beberam do próprio sistema colonial no sentido de observarem o mundo de uma outra perspectiva. Jean Pierre Dozon (at, all, 2005, p.55) refere-se que a África negra no geral mantém-se bastante fiel a essa imagem de mosaico étnico difundida por etnólogos (e anteriormente pelos administradores coloniais), representando apenas um prolongamento lógico de um passado imemorial cujos processos ditos modernos (desenvolvimento económico, urbanização, construção de Estado-nação) dificilmente conseguem dissipar a inércia (…) prossegue o autor (…) a interpretação dos tribalismos representa apenas um dos elementos de um discurso mais geral sobre a África negra contemporânea. À semelhança das ideologias do desenvolvimento e das ideologias de Estado, a sua formulação parte de uma referência primordial, a sociedade tradicional; seja ela valorizada ou aviltada, um obstáculo ou um impulso, trata-se de uma sociedade concebida como uma abstracção, uma figura ideal e fechada; a sua função não consiste em esclarecer o universo do que é supostamente representante (as sociedades pré-coloniais) mas antes em promover a ideia de que o cerne dos problemas africanos radica-se numa especificidade cultural que seria, de certa forma, testemunhada pela maior parte do continente africano (p.58).” Este discurso de tribalismo não passa de fanforrismo político dos alienados que se sentem privilegiados no seguimento do sistema neocolonial instalado em Angola.

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